segunda-feira, 9 de março de 2009

deu no Libération


XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXfoto de James A. Williamson
Debord, um tesouro
(Libération, 16 de fevereiro de 2009)

A França decide catalogar os arquivos do filósofo situacionista cobiçados por uma universidade americana.

Guy Debord erigido em tesouro nacional.... O estado francês acaba de negar permissão para que os arquivos pessoais do fundador da Internacional situacionista deixem a França. A decisão de 29 de janeiro, assinada pela ministra da Cultura Christine Albanel e publicada quinta-feira no Journal Officiel, estipula que esses arquivos adquirem "uma grande importância para a história das idéias da segunda metade do século XX e para o conhecimento do trabalho sempre controvertido de um dos últimos grandes intelectuais franceses desse período". Uma decisão maior e simbólica. "Essa classificação como tesouro nacional deve ser interpretada como um reconhecimento pelo Estado do que Guy Debord representa na vida intelectual e artística do século passado", enfatiza Bruno Racine, presidente da Biblioteca Nacional da França, que trabalhou muito para que os arquivos ficassem na França.

Paradoxo

Supreendente posteridade para Guy Debord, que preferia o segredo aos holofotes, não concedia nenhuma entrevista à imprensa e amaldiçoava as distinções. Quando muito, finalmente deixou para a Gallimard, depois de ter sido o autor emblemático das edições Campo Livre, a incumbência de editar sua obra. "Eu mereci o ódio universal da sociedade do meu tempo", escrevia ele emn1978, "e teria ficado aborrecido de ter outros méritos aos olhos de uma tal sociedade."

Ei-lo hoje, pelo mais vivo dos paradoxos, transformado em seu "tesouro". Guy Debord suicidou-se com um tiro no coração em 30 de novembro de 1994, aos 62 anos, em sua casa de Haute-Loire. Nascido em Paris em 1931, fundou a Internacional situacionista em 1957, movimento de pensamento na linha do letrismo, que ele afundou em 1972. Esse teórico da revolução continuou a escrever e a filmar. Desde a sua morte, sua mulher e legatária universal Alice Debord protegia seus arquivos, os quais raramente foram consultados. Ela mesma trabalhou para publicar a Correspondência do autor do Panegírico, cujo sétimo volume, publicado pela Fayard em 2008, cobre o último período, de janeiro de 1988 a novembro de 1994.

Há dois anos a universidade de Yale, nos Estados Unidos, manifestou o desejo de adquirir o conjunto dos arquivos pessoais do autor. Os americanos são ávidos por intelectuais franceses contemporâneos. A universidade desejava anexar essa aquisição ao seu centro de pesquisa sobre as vanguardas do qual o fundo Debord seria um dos diamantes.

E de fato esse fundo é magnífico (ler abaixo). Ele engloba a quase-totalidade do trabalho do escritor e cineasta, de 1950 a 1994. A peça-mestra, evidentemente, é o manuscrito de A sociedade do espetáculo, (publicado em 1967), que irrigou maio de 68 e toda uma corrente sociológica e filosófica.

Fichas de leitura.

Preocupado com seu legado, Guy Debord havia tomado o cuidado de selecionar e organizar tudo. Ele dissera ao seu amigo Ricardo Paseyro em outubro de 1994: "Fizemos a triagem, queimamos uma massa de papéis inúteis e conservamos à disposição de meus leitores tudo o que importa". Ele conservou apenas o que considerava como essencial para a compreensão de sua obra. A gênese de seus textos, dos primeiros esboços em fichas às provas corrigidas, mostram uma pronunciada atenção para com a precisão. Debord lutava contra o "mais ou menos" e tinha um cuidado incansável ao transcrever seu pensamento em palavras. Esse grande leitor - de Hegel, Clausewitz ou Maquiavel - redigiu milhares de fichas de leitura. Os planos de seus filmes também foram concebidos minuciosamente. No total, o conjunto de seus vestígios terrestres foi excepcionalmente conservado. Pouco da obra foi a leilão , somente cerca de trinta cartas de juventude, redigidas entre 18 e 22 anos, que foram dispersas em 12 de maio de 2006
em Drout.

Para a comissão consultora de tesouros nacionais, que emitiu um parecer negativo à exportação, "esses documentos, que ilustram o processo criativo completo do pensamento do autor, permitem apreender sua maneira assídua de trabalhar, sua grande erudição e seu estilo, herdado dos maiores clássicos, posto a serviço de sua análise crítica da sociedade moderna".

Gesto forte.

E eis que o "situacionista" é reconhecido como um dos maiores pensadores do mundo ocidental por uma sociedade que ele condenava à destruição. É um gesto patrimonial forte. "É a primeira vez que um escritor tão próximo de nós" é "também considerado como tesouro nacional", avalia Bruno Racine , explicando que com Debord a BNF toma a modernidade nos braços; "Este fundo será plenamente valorizado. Um verdadeiro programa será iniciado com a instauração de um colóquio e de uma exposição".

O pensamento de Guy Debord será em breve acessível em sua totalidade e sua coerência.
Ao contrário da lenda.
(Trad. Andréa Bieri)

Leia outras matérias publicadas a respeito no Libération e no Le Monde Diplomatique (em português).
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Nenhum comentário: