XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXfoto de James A. Williamson

(Libération, 16 de fevereiro de 2009)
A França decide catalogar os arquivos do filósofo situacionista cobiçados por uma universidade americana.
Guy Debord erigido em tesouro nacional.... O estado francês acaba de negar permissão para que os arquivos pessoais do fundador da Internacional situacionista deixem a França. A decisão de 29 de janeiro, assinada pela ministra da Cultura Christine Albanel e publicada quinta-feira no Journal Officiel, estipula que esses arquivos adquirem "uma grande importância para a história das idéias da segunda metade do século XX e para o conhecimento do trabalho sempre controvertido de um dos últimos grandes intelectuais franceses desse período". Uma decisão maior e simbólica. "Essa classificação como tesouro nacional deve ser interpretada como um reconhecimento pelo Estado do que Guy Debord representa na vida intelectual e artística do século passado", enfatiza Bruno Racine, presidente da Biblioteca Nacional da França, que trabalhou muito para que os arquivos ficassem na França.
Paradoxo
Supreendente posteridade para Guy Debord, que preferia o segredo aos holofotes, não concedia nenhuma entrevista à imprensa e amaldiçoava as distinções. Quando muito, finalmente deixou para a Gallimard, depois de ter sido o autor emblemático das edições Campo Livre, a incumbência de editar sua obra. "Eu mereci o ódio universal da sociedade do meu tempo", escrevia ele emn1978, "e teria ficado aborrecido de ter outros méritos aos olhos de uma tal sociedade."
Fichas de leitura.
Preocupado com seu legado, Guy Debord havia tomado o cuidado de selecionar e organizar tudo. Ele dissera ao seu amigo Ricardo Paseyro em outubro de 1994: "Fizemos a triagem, queimamos uma massa de papéis inúteis e conservamos à disposição de meus leitores tudo o que importa". Ele conservou apenas o que considerava como essencial para a compreensão de sua obra. A gênese de seus textos, dos primeiros esboços em fichas às provas corrigidas, mostram uma pronunciada atenção para com a precisão. Debord lutava contra o "mais ou menos" e tinha um cuidado incansável ao transcrever seu pensamento em palavras. Esse grande leitor - de Hegel, Clausewitz ou Maquiavel - redigiu milhares de fichas de leitura. Os planos de seus filmes também foram concebidos minuciosamente. No total, o conjunto de seus vestígios terrestres foi excepcionalmente conservado. Pouco da obra foi a leilão , somente cerca de trinta cartas de juventude, redigidas entre 18 e 22 anos, que foram dispersas em 12 de maio de 2006
em Drout.
Gesto forte.
E eis que o "situacionista" é reconhecido como um dos maiores pensadores do mundo ocidental por uma sociedade que ele condenava à destruição. É um gesto patrimonial forte. "É a primeira vez que um escritor tão próximo de nós" é "também considerado como tesouro nacional", avalia Bruno Racine , explicando que com Debord a BNF toma a modernidade nos braços; "Este fundo será plenamente valorizado. Um verdadeiro programa será iniciado com a instauração de um colóquio e de uma exposição".
Ao contrário da lenda.
Leia outras matérias publicadas a respeito no Libération e no Le Monde Diplomatique (em português).

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