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Depois de muito vasculhar grande parte do armazém bibliográfico de Derrida, infelizmente não consegui encontrar (se alguém souber indique-me, por favor) um só
trace de alguma
circonfession gastronômica.
Mas nem tudo são indecidíveis migalhas nessa pós-desconstrução culinária...
Embora as singularidades do paladar derridiano permaneçam incógnitas para nós, o diferido menu de hoje pelo menos nos oferece um suplemento: dois textos nos quais são tematizados a ingestão de animais, o sacrifício, o vegetarianismo, o canibalismo e a hospitalidade.
Comendo o mingau pelas bordas, ou melhor, desconstruindo o crème de la crème da tradição metafísica, Derrida atinge o tutano do problema (para ele), aquela que seria a grande questão diet-ética que inquietou as filosofias e religiões de todos os tempos: "Deve-se comer bem”. Mas como se deve comer bem? Ou comer o Bem? O Bem é comível? O quê (ou quem) se deve e não se deve comer? (e por aí afora. Ou melhor, adentro....).
O primeiro desses textos – bastante gorduroso, aliás – é , na verdade, uma entrevista que data de 1988 e que em 1992 foi republicada em Points de Suspension com o título de "Il faut bien manger" - le calcul du sujet.
O trecho da entrevista em que esses temas aparecem é o recheio de uma indigesta discussão sobre os modos como os vários discursos metafísicos – sobretudo os de Heidegger e Lévinas – trataram a questão do sujeito, do próximo, da responsabilidade perante o outro e, consequentemente (ou não), pensaram a distinção entre o homem e o animal.
Abaixo, uma palhinha dessa tentativa derridiana de abate do carno-falogocentrismo:
Não se trataria apenas de evocar a estrutura falogocêntrica do conceito de sujeito, pelo menos não em seu esquema dominante. Eu gostaria de demonstrar um dia que esse esquema implica a virilidade – carnívora. Eu falaria de um carno-falogocentrismo, se isso não fosse uma espécie de tautologia (...). Basta levar a sério a interiorização idealizante do falo e a necessidade de sua passagem pela boca, quer se trate das palavras ou das coisas, das frases, do pão ou do vinho cotidiano, da língua, dos lábios ou do seio do outro. (...)
(...) A força viril do macho adulto, pai, marido ou irmão (...) pertence ao esquema que domina o conceito de sujeito. Este não se quer apenas mestre e possuidor ativo da natureza. Em nossas culturas, ele aceita o sacrifício e come carne. (...) O chefe deve ser comedor de carne (em vista de ser, aliás, ele próprio “simbolicamente” – ver mais acima – comido). (...).
Se agora o limite entre o vivo e o não-vivo parece tão pouco seguro, pelo menos como limite oposicional, tanto quanto o limite entre “homem” e “animal”, e se, na experiência (simbólica ou real) do “falar-comer-interiorizar”, a fronteira ética não mais passa rigorosamente entre o “não matarás” (o homem, teu próximo) e o “não submeterás à morte o vivente em geral”, mas entre inúmeros modos, infinitamente diferentes, da concepção-apropriação-assimilação do outro, a questão passa a ser então, quanto ao “Bem” de todas as morais, como determinar a melhor maneira, a mais respeitosa e a mais grata, a mais generosa, também, de se referir ao outro e de referir o outro a si. Para tudo o que se passa na beira dos orifícios (da oralidade mas também da orelha, do olho – e de todos os “sentidos” em geral) a metonímia do “comer bem” seria sempre a regra. A questão não é mais saber se é “bom” ou “do bem” comer o outro, e qual outro. Comemo-lo, de todo modo, e nos deixamos comer por ele. As culturas ditas não antropofágicas praticam a antropofagia simbólica e até mesmo constroem seus socius mais elevados, quer dizer, a sublimidade de sua moral, de sua política e de seu direito sobre essa antropofagia. Os vegetarianos também comem animais, e até mesmo homens. Eles praticam um outro modo de denegação. (...)
A questão infinitamente metonímica a respeito do “deve-se comer bem” não deve ser nutritiva apenas para mim, que então comeria mal, ela deve ser compartilhada, como você talvez o diria, e não apenas na língua. “Deve-se comer bem” não quer dizer, primeiramente, apreender e incorporar em si, mas aprender e dar de comer, aprender-a-dar-de-comer ao outro. Nunca se come sozinho, eis a regra do “deve-se comer bem”. É uma lei da hospitalidade infinita.
(Aqui vc lê o trecho sem os cortes. Na rede o texto Il faut bien manger na íntegra é facilmente encontrado em francês e em inglês.)
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O outro extrato, que segue mais ou menos a mesma linha, porém com um tom levemente mais sentimental está numa entrevista com Elizabeth Roudinesco (De que amanhã, Zahar, 2004, trad. André Telles.):
Derrida: (..) Tenho simpatia por aqueles que se revoltam: contra a guerra declarada a tantos animais, contra a tortura genocidária que se lhes inflige frequentemente de forma no fundo perversa, isto é, criando em massa, de maneira hiperindustrializada, rebanhos para assim exterminar para as supostas necessidades dos homem; sem falar das centenas de espécies que desaparecem a cada ano na superfície da terra por culpa dos homens que, quando não matam bastante, deixam morrer – supondo que o direito possa um dia estabelecer uma diferença confiável entre fazer e deixar morrer! (...) Não creio também no “vegetarianismo” absoluto, nem na pureza ética de suas intenções – nem mesmo que seja sustentável em todo o rigor, sem compromissos e sem substituição simbólica. Chegaria até a sustentar que, mais ou menos refinado, sutil, sublime, um certo canibalismo permanece insuperável. (...)
Roudinesco: Mas como conciliar sua preocupação de compaixão a respeito dos animais com a necessidade para os humanos de comer carne?
Derrida: Não basta se proibir de comer carne para se tornar não-carnívoro. O processo carnívoro inconsciente tem muitos outros recursos, e não acredito na existência do não-carnívoro em geral. Mesmo no caso daquele que acredita se contentar com pão e vinho . (...). Mesmo que não soubéssemos disso desde sempre, e pelo menos há dois mil anos, a psicanálise nos ensinou: os “vegetarianos” também podem incorporar, como todo mundo, e simbolicamente, o vivo, a carne e o sangue – de homem ou de Deus. Também os ateus gostam de “comer o outro”. Caso amem, pelo menos, pois é a tentação do próprio amor. Um pensamento aqui para a Pentesiléia de Kleist. Ela foi um dos grandes personagens de um seminário que dediquei há anos a exatamente isto: “comer o outro”.
Roudinesco: Ainda mais que, de um ponto de vista psicanalítico, o terror de ingestão da animalidade pode ser sintoma de um ódio do vivo levado até o assassinato. Hitler era vegetariano
Derrida: Alguns ousaram extrair um argumento desse vegetarianismo de Hitler. Contra os vegetarianos e os amigos dos animais. Luc Ferry, por exemplo (Le nouvel ordre écologique). Essa catilinária caricatural procede mais ou menos assim: “Ah, vc esquece que os nazistas, e Hitler em particular, foram uma espécie de zoófilos! Portanto amar os animais é odiar ou humilhar o homem! A compaixão pelos animais não exclui a crueldade nazista, é inclusive seu primeiro sintoma!” O argumento me parece grosseiramente falacioso. Quem poderia acreditar um segundo nessa paródia ? E aonde nos levaria ele? A redobrar a crueldade para os animais a fim de dar provas de um humanismo incalculável? (...)
(...) O animal sofre, manifesta seu sofrimento. É impossível imaginar que um animal não sofra quando submetido a uma experimentação de laboratório, ou mesmo um adestramento de circo. Quando vemos passar um número incalculável de bezerros criados à base de hormônios, entulhados num caminhão e enviados diretamente do estábulo para o abatedouro, como imaginar que não sofram? Além disso, com o abate industrial, os animais sofrem em muito maior número do que antigamente.
Roudinesco: (...) Mas como fazer para conciliar essa vontade de redução do sofrimento animal com a necessidade de uma organização industrial de criação e abate que permita acabar com a fome de tantos seres humanos?
Derrida: Uma grande desorganização-reorganização da terra humana está em curso. Pode-se esperar o melhor e o pior, claro. Mas sem fazer o elogio de um vegetarianismo primário, podemos lembrar que o consumo de carne nunca foi uma necessidade biológica. Não se come carne simplesmente porque se precisa de proteínas – e as proteínas podem aliás ser encontradas em outras coisas. Existe no consumo de carne, como aliás no caso da pena de morte, uma estrutura sacrificial, e portanto um fenômeno “cultural” ligado a estruturas arcaicas que persistem e que é preciso analisar. Provavelmente nunca se deixará de comer carne – ou como eu sugeria há pouco, algum substituto equivalente da coisa carnada. Mas é possível mudar as condições qualitativas, a quantidade, a avaliação da quantidade, bem como a organização geral do campo da alimentação. (...)
Roudinesco: (...) Não esqueçamos que a gastronomia é parte integrante da cultura! A tradição culinária francesa poderia prescindir da carne?
Derrida: Existem outros recursos para o refinamento gastronômico. A carne industrial não é o fino dos finos em gastronomia. Cada vez mais (...) alguns preferem animais criados em certas condições, ditas mais “naturais”, em certos pastos, etc...Portanto, em nome da gastronomia que a senhora fala, será preciso efetivamente transformar os costumes e as “mentalidades”.
Roudinesco: A luta de José Bové contra a “péssima comida americana” e contra o McDonald’s em particular talvez seja o primeiro sinal dessa mudança. Do mesmo modo, o caso da doença da “vaca louca” deverá nos incitar a inevitáveis transformações.
Derrida: Não me peça para subscrever incondicionalmente o que se faz ou o que se fará nesse domínio, mas os sinais contam. Lembram uma mutação em curso.
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