Recordemos a cláusula-principio que regia a filmagem do L’Abecedaire: Deleuze deveria responder “sem ter refletido” às questões que lhe fossem feitas por Claire Parnet, sobre temas previamente escolhidos por ela e sobre cujo teor ele fora apenas “prevenido. Além disso, a entrevista só poderia ir ao ar após a morte de Deleuze (o que afinal acabou não acontecendo, pois ele mesmo acabou permitindo que o Abecedário fosse exibido pela primeira vez em 1994, um ano antes de sua morte).
Na distribuição dos temas pelas 26 letras do alfabeto, não coube ao vocábulo comida (ou similar) encabeçar nenhuma delas (candidatas potenciais seriam, p. ex., N de nourriture ou R de repas....).
Uma vez que o “roteiro” do Abecedário foi proposto por alguém que parecia conhecer bem os hábitos alimentares de Deleuze, fica claro o porquê da quase exclusão, como veremos mais adiante...
Embora tenha sido preterida pela bebida (esta sim ganhou letra própria, onde o tema é desenvolvido com prolixidade proporcional à importância que ele tinha na vida de Deleuze), ainda assim a comida passa, rapidamente, pela boca do entrevistado. É na letra M – de Maladie, não de manger – que Claire lhe coloca a questão, em meio a outros temas mais prementes que alimentação, mas que mantém com esta um vínculo triádico, formado pelos termos doença, comida e velhice.
Depois de relatar os efeitos da tuberculose (contraída em 1968) e distinguir doença de fadiga, Deleuze inicia sua fala como alguém que, aparentemente, sofre de inapetência.
“Comer é a coisa mais chata do mundo”, diz ele, expressão que soa natural se lida/ouvida na continuidade da reflexão sobre sua debilidade física, iniciada poucas frases antes.

O que surpreende é que essa espécie de aversão pelo ato de comer em nada impede a possibilidade de uma relação visceral, por assim dizer, com a comida: sua refeição ideal, “festiva” inclui miolo, língua ou tutano (ou os três juntos), iguarias que habitam uma espécie de região “
double-bind” do paladar (“sublimes” e “nojentas” ao mesmo tempo).

Curiosamente, esse amante de vísceras associa o canibalismo não com a ingestão de carnes que são ou poderiam lembrar a carne humana (como o cérebro, que ele tanto apreciava), mas com a ingestão de queijo!
Curioso é, também, que o próprio Deleuze brinca com uma espécie de isomorfismo entre seu “estilo” gastronômico e seu estilo de pensamento: a “santíssima trindade” formada por miolo, tutano e língua encontraria em sua filosofia um trio correspondente formado por conceito, afecto e percepto.

A título de brincadeira: como seria a correspondência com as 3
caóides (plano de imanência, plano de composição, plano de referência)?. Ou com as 3 linhas do
rizoma (linhas de segmento, linhas moleculares, linhas de fuga)? Ou com as 3 forças que concorrem no
ritornelo ( forças do caos, forças terrestres, forças cósmicas)? Etc..etc...
Um pequeno trecho de Maladie
CP: Gostaria de que falássemos de sua relação com a comida.
GD: A velhice... A velhice, não. A comida?
CP: Sim, porque você gosta de comidas que parecem lhe dar força e vitalidade, como miolo, lagosta, etc. Mas tem uma relação particular com a comida. Não gosta muito de comer.
GD: Sim, para mim, comer é uma coisa... Se eu tentasse definir a qualidade de comer seria muito chato. Para mim, comer é a coisa mais chata do mundo. Beber, sim! Mas a letra B já passou. Beber é extremamente interessante. Comer nunca me interessou e acho chatíssimo. Comer sozinho é terrível. Comer acompanhado muda tudo, mas não transforma a comida, só me permite suportar comer, mesmo que eu não diga nada, e faz com que seja menos chato. Comer sozinho... Muita gente é assim. Aliás, a maioria das pessoas admite que comer é uma tarefa abominável. Mas é claro que tenho os meus pratos prediletos. Mas são especiais, pois causam um nojo universal. Mas, afinal, eu bem que suporto o queijo dos outros.
CP: Você não gosta de queijo.
GD: Dentre as pessoas que não suportam queijo, eu sou um dos raros a ser tolerante, pois não expulso aquele que come queijo. Sempre suportei este gosto que me parece igual ao canibalismo. Parece-me o horror absoluto. Quando me perguntam de que é composta a minha refeição predileta, que seria uma festa para mim, eu sempre falo de três coisas que me parecem sublimes e, no entanto, são nojentas: língua, miolo e tutano. São coisas muito ricas e seria difícil engolir tudo isso. Mas há alguns restaurantes em Paris que servem tutano. Mas, depois, não posso comer mais nada, pois servem uma grande quantidade. Aliás, é fascinante. O miolo e a língua... Se eu tentasse relacionar com o que dissemos, há uma espécie de trindade. Poderíamos dizer — e seria anedótico — que o cérebro é Deus, é o Pai. Que o tutano é o Filho, já que está ligado às vértebras, que são pequenos crânios, e Deus é o crânio. Pequenos crânios, vértebras... Portanto, o tutano é Jesus. E a língua é o Espírito Santo, que é a própria potência da língua. Eu também poderia arriscar assim: o miolo é o conceito, o tutano é o afecto e a língua é o percepto. Não me pergunte por quê, mas sinto que são trindades. É, esta seria uma refeição fantástica para mim. Não sei se já tive os três ao mesmo tempo. Talvez em algum aniversário. Alguns amigos teriam feito uma refeição destas para mim. Uma festa!
CP: Mas não pode comer as três coisas...
GD: Seria demais!
Leia o
Abecedário na íntegra
aqui.
Um comentário:
Realmente, cara Andrea, tinha razão sobre a impressão que este texto causaria! Um paladar "punk" para e um pensamento tão complexo em uma presença! Nunca aprofundei-me além de "O que é Filosofia", mas nestas férias ficarei debruçado outra vez em suas páginas. Aguardo mais artigos sobre a relação gastronomia-Filosofia!
www.vontadeluta.blogspot.com (Mein Blog!)!!!!!!!!!
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