quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

crítica da razão dietética - Intro

                                                                          
 xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxCamus traçando uma feijoada ao lado de LIna Bo Bardi

Pergunta-se o que é mais grave: falar de comida ou comer as palavras. (Deleuze – Lógica do sentido).

Ok, ok: o assunto é batido, eu sei.
Mas apetitoso o suficiente para ainda regalar nossos palatos.
Pensar e comer, eis nosso petisco do dia.
A relação entre essas duas maneiras tão distintas (“ou não”, diriam Nietzsche, Caetano e Derrida) de gerir o metabolismo de seres, não-seres e entes foi ruminada por filósofos de todos os tempos, quer estivessem em questão os meios para promover a ataraxia; ou preconizar a cura das disorexias do “corpo-invólucro” submetendo-o à ortomorfia da razão; ou, ainda, ao se considerar a possibilidade de íntimas conexões entre estilos de pensamento e regimes alimentares.
Ah, sem esquecer que esse vatapá também foi apimentado por acalorados debates concernentes à extensão do direito de matar o futuro alimento (homens mulheres e crianças incluidos), como lembra Derrida ao falar de “carnofalogocentrismo” – ver futuro post numero 3 desta série). Numa abordagem mais prosaica (embora em muitos casos isso não exclua a verve, e talvez seja mesmo o único ponto de sua obra em que o autor a exiba), temos, ofertados ao desjejum de nossa reflexão (mas sobretudo à nossa diversão sobremesa) as páginas e páginas de singelas autoconfissões das idiossincrasias culinárias dos distintos pensadores.

De um modo ou de outro, no decorrer dos séculos toda essa “gastrographosophia” rendeu um repertório assaz eclético, no qual considerações de ordem ética, estética, prescritiva, proscritiva, moral, terapêutica, política e fenomenológica foram recheadas com ingredientes que vão do mais frugal figo mediterrâneo (v. Diógenes) ao mais elaborado peru com trufas de Ferney (v. Voltaire).
Sim, o menu pode ser tão sucinto quanto o pão de Heráclito e o que sobrou de seus escritos, ou tão prolixo quanto a obra e a dieta de Nietzsche (incluindo o presuntinho vienense enviado pela mama), ou o cérebro de Deleuze (cf. futuro post) – mas insosso como a coalhada de Rousseau – ah, lá isso é que não!
E olha que estou omitindo, digamos assim, a azeitona da empadinha, ou, como diria Kant (o comedor de sopa de aletria), o parerga da coisa toda: graves ponderações sobre a admissão, no mundo da arte, da música composta para banquetes; aporias envolvendo a superioridade do serviço à russa e à francesa; apreciações variadas sobre os modos camponeses à mesa; especulações sobre a curvatura do garfo de carne ou da baixa origem da louça, etc.......

Durante muito tempo, meu contato com o tema se dava ao melhor estilo “coffee-break””: leitura rápida e casual de uns poucos textos, a maioria deles na esteira daquelas célebres páginas de Nietzsche (em Ecce Homo) sobre seus próprios ensaios alimentares.
Isso até conhecer, anos atrás, os livros de Michel Onfray : A razão gulosa - filosofia do gosto (1995) e O ventre dos filósofos (1989).

Em O ventre dos filósofos, Onfray "convida para o banquete": Diógenes, Rousseau, Kant , Fourier, Nietzsche e Sartre.
No último capítulo - hilariamente intitulado "Sartre ou a vingança do crustáceo", Onfray delineia o perfil dietético do filósofo. Retoma trechos de O ser e o nada, Diários de uma guerra estranha e aquelas entrevistas que Sartre (já velho e enfermo, porém tenaz no hábito do whisky) concedeu a Simone de Beauvoir em Cerimônia do adeus.                                                  
Se até lá meu atual estado de dispepsia mental não me impedir, depois de inaugurado este pequeno tour ainda quero postar sobre Deleuze e Derrida, pelo menos.

Sem trocadilho, esses dois também são um prato cheio...

2 comentários:

Contradição Afirmação Guerra disse...

Morgen, Profª Andreia, tudo bom? Creio que seus artigos sobre a relação entre gastronomia e filosofia atingiram minhas problemáticas! Nietzsche tinha um ótimo paladar, mas compartilho de Sartre um desprezo por frutas (confesso que não como de forma alguma). Como sou essencialmente (se Heidegger analisasse minhas predileções alimentares) carnívoro, seus textos foram bem originais! Adorei!

Anônimo disse...

Oi PR!
Há quanto tempo!
Bem, espere para ler o trecho de Derrida, que aborda mais diretamente esse "ponto sensível" de vegetarianos & carnívoros.
Um abraço,
Andréa.