segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Os franceses e Nietzsche 1

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Um certo Fréderic...


Turma de 1924 da École Normale Supérieure. Sartre é o segundo da direita para a esquerda, sentado. À sua direita, Raymond Aron. O de óculos e gravata borboleta é Paul Nizan.
Sartre tinha 22 anos e era aluno da École Normale Supérieure quando começou a escrever Uma derrota (Une défaite), livro que viria a ser o seu romance de estréia, mas que não foi aceito para publicação.
O ponto de partida para o enredo de Uma derrota foi, segundo o próprio Sartre, a biografia de Nietzsche escrita por Charles Andler, publicada na França poucos anos antes e que ele havia lido para preparar, em 1927, um seminário para o curso de Brunschivg cujo tema era: “É Nietzsche um filósofo?” A essa questão, não apenas Sartre, mas a Escola inteira respondiam, na época, com um convicto “não”*.

Em 1944, no ensaio "Ida e volta", consagrado a Brice Parain (publicado em Situations I), Sartre reitera sua posição ao destacar o que seria, segundo ele, uma equivocada análise do cogito cartesiano :

"Parain não teve receio de reproduzir uma lamentável análise do cogito que ele encontrou em Vontade de Poder. Sabe-se que Nietzsche não era filósofo. Mas porque Parain, profissional da filosofia, invoca essas frivolidades?”
Embora Nietzsche não tenha entrado em conta como filósofo, não deixou de ser vorazmente assimilado pelo jovem Sartre.
A literatura sartreana, mesmo depois da “fase de juventude” é habitada por temas e personagens de explícita procedência ou inspiração nietzscheana
Algumas passagens de Une défaite**:

"A gente o via encurvado e amarelado, a passear pela Escola com ar reflexivo e mau-hálito. Subitamente, ele elevava as espáduas, enchia o peito, esboçava um passo de dança e cantava a plenos pulmões. Mas então seu dorso se curvava como antes e ele lentamente retomava uma marcha afundada."

"Ele era o prisioneiro de uma regra austera. (...). Tornou-se um novo asceta. Infligia-se a alegria como outros a disciplina."

"(...) E subitamente, ele sentia-se no extremo limite de seu ser, muito perto de ser um outro Fréderic, mais sutil, aquele que ele deveria ser só muito mais tarde. Sentia-se como que em equilíbrio sobre uma ponta. Compreendia, de súbito, sua alegria e a primavera. Mas isso era o inexprimível."

Passados 13 anos, o modo como Sartre refere-se à aproximação com Nietzsche tem um tom de superação:

"Em poucas palavras, sempre estive perseguido pela idéia de vida. Simplesmente, quando estava na Escola Normal tinha ainda um sentimento de liberdade e de irresponsabilidade em relação a essa vida, minhas realizações não entravam em conta, eu apenas me preparava. Ao passo que, depois disso, caí dentro dela. É fácil ver como foram sempre afastados de mim certos excessos soberbos, o desespero surrealista, a humildade cristã, a fé revolucionária. Estava envolto em um ideal de vida de grande homem que eu emprestava do romantismo. (...) Assim eu queria, com obstinação e sem perceber, realizar entre 1920 e 1960 uma vida de 1830. Isso me foi negado, naturalmente, e eu tomava meus materiais de empréstimo ao século: marxismo, pacifismo, antifacismo, etc... (...) Jamais pensei em tentar uma moral do prazer puro ou da felicidade: não era meu destino. Ao contrário, vê-se como, naquela perspectiva, as idéias de progresso, de super-homem, a intenção de superar a mim mesmo, adquiriam um valor especial. Eu a despia de seus valores morais e as introduzia no quadro de minha vida. O objetivo não era criar o super homem, fazer progredir a moral, mas apenas ter uma boa vida. (...)
O que acabo de explicar jamais disse a mim mesmo - não como devia ter dito. Mas sentia. Em compensação, eu tinha preocupações morais definidas: não queria ser apenas um grande escritor, ou apenas levar a vida de um homem. Queria ser uma pessoa "de bem", como dizia em 1930 com certo pudor. (...)
Mas durante muito tempo essas tendências morais, por estarem fundidas ao meu desejo de vida, permaneceram subordinadas a ele: eu seria moral para realizar a vida mais bela, e não pela moral em si. Naturalmente, essa subordinação da moral desaparecia quando eu encarava o problema moral em si mesmo ou quando tentava agir moralmente. (...)
Sem falar no individualismo destruidor e anárquico dos meus 19 anos, vejo que logo depois comecei a me preocupar com uma moral construtiva. Sempre fui um construtor. A náusea e O muro deram uma idéia falsa da minha pessoa porque, a princípio, fui obrigado a destruir. Procurava, portanto, uma moral e ao mesmo tempo uma metafísica, e devo dizer que, seguindo Spinoza, nesse ponto jamais a moral me pareceu diferente da metafísica. (...)
Hoje, vejo perfeitamente que, desde os meus 20 anos, a atitude moral tinha, para mim, o privilégio de conferir ao homem uma dignidade metafísica mais alta. Assim interpretávamos, em 1925, Nizan e eu, o termo salvação, usado por Spinoza. Quando eu estava na Escola Normal, ser moral equivalia, para mim, a fazer a sua salvação. A expressão era imprópria, mas permaneceu. (..)
Vejo enfim que a procura da salvação era a procura de uma caminho para o absoluto. (...)
Em poucas palavras, eu procurava o absoluto, queria ser um absoluto (...)
Essa busca do absoluto podia me conduzir ao existencial. Mas, na verdade, a própria idéia do existencial era muito árdua para que eu a inventasse sozinho.
(...) Eu estava convencido de que teria uma vida correspondente à minha obra e procurava a amizade, o amor, todas as paixões, queria todas as experiências. E para merecer essa vida que eu esperava – mas com a qual não estava ainda comprometido, pois me considerava um homem livre – não achava suficiente escrever, era preciso ser moral. Essa moral era, para mim, uma transformação total da minha existência, e um absoluto. Mas na verdade, procurava o absoluto sobretudo nas coisas, não em mim; eu era realista por moral. Ao mesmo tempo, por austeridade protestante de justiceiro,adotara um pensar cortante e severo que me afastava desse absoluto que era eu e me confinava a um pedantismo rude, que se alegrava com a própria rudeza. Essa rudeza juntava-se às violências que eu exercia contra meus amigos de escola .Tudo isso me levava à fruição violenta de um mundo lamuriento e colorido, em completa contradição com aquele que eu criara em minha teoria da contingência. E cheguei a pregar uma moral nietzscheana da alegria, e, dali em adiante, toda a alegria, toda a rudeza passaram a ser impossíveis no mundo contingente e nauseabundo que eu descobrira."

Mais adiante, numa reflexão sobre a natureza do futuro, a concepção nietzscheana de vontade é criticada, em meio a outras, por não ter concebido que, “o ser que quer, que sofre, que deseja” tem que ser “compreendido em seu ser como afligido por uma falta existencial”:

“O absurdo da vontade de poder”, de Schopenhauer ou de Nietzsche, está em que, concebendo-a como força, jamais poderemos compreender que ela se exprima por desejos ou vontades. Permanecerá como força e será equilibrada por forças antagônicas, simplesmente. De nada servirá dizer que se trata de forças espirituais, a menos que se tenha definido o espírito como o em-si atravessado pelo Nada. Assim, portanto, na origem de todos os desejos e da vontade é preciso colocar a falta existencial como característica da consciência, devemos então colocar duas questões primordiais: o que é uma falta – o que é que falta?”
Um Sartre já doente recapitula, durante a entrevista com Simone de Beauvoir em 1974 (Ver Cerimônia do adeus) , sua fase de juventude:

"Em meu romance inspirado nas relações de Nietzsche com Wagner, via-me como um homem que teria uma vida movimentada e que, a cada drama, escrevia um livro que seria publicado; imaginava uma vida romanesca, um homem de talento que morreria desconhecido, mas que depois seria glorificado. Essas são velhas lembranças. Eu colocava o personagem diante de mim, e sonhava com tudo o que lhe aconteceria...."

* Cf. Jacques LE RIDER, Nietzsche en France, p. 136
** in Michel CONTAT e Michel RYBALKA: Jean-Paul Sartre, Écrits de jeunesse. Trad. minha.


2 comentários:

Anônimo disse...

Andréa,


sou orientando da Katia. Fiquei impressionado com o seu blog. É muito bem feito e seus textos são maravilhosos. Parabéns! Imagino o trabalho que dá...

Serei um visitante assíduo.


Abraço

abaetê disse...

Oi Marcelo!
Obrigada pelo incentivo,
apareça sempre (embora eu mesma não consiga fazê-lo com a freqüência que gostaria!!!)
Um abraço!
Andréa.