sexta-feira, 13 de julho de 2012
crítica da razão dietética IV - Simone de Beauvoir
"Nunca haverá uma mulher como Gilda".
Sim, para a personagem imortalizada por Rita Hayworth, tal slogan caía como uma luva, ou melhor, como o par de luvas tirado pela femme fatale na legendária cena que extinguia de vez qualquer dúvida sobre quem era, entre os os terráqueos humanóides, o mais belo e sedutor espécime do sexo feminino.
Mas se a beleza embasbacante de Gilda/Rita não encontrava concorrentes à altura (o que provavelmente se repetia em relação aos seus recordes halterocopistas), muitos outros superlativos sobraram como títulos de consolação para o restante das fêmeas da raça dos bípedes implumes.
Esse mesmo bordão, portanto, seria aplicável - em sentidos muito variados - a outras tantas campeãs em suas respectivas modalidades.
Não faltariam motivos para dizer com toda a tranquilidade, por exemplo, que nunca haverá uma mulher como Simone.
Entre todas as distinções que lhe caberiam, com ou sem exclusividade (e a de ter sido companheira do mais medonho espécime filosofante que já se viu sobre a terra desde a morte de Sócrates é uma delas), Simone de Beauvoir se destacava a olhos vistos por seu versátil, eclético, tenaz, inescrupuloso, caprichoso, intrépido e dialético apetite.
Em sua vasta gastrobiografia, as antinomias abundavam, registradas, muitas vezes, em páginas e mais páginas de seus diários (os de viagem, sobretudo). Outras vezes, singelas notas de 2 ou 3 linhas bastavam para expressar seus juízos estéticos sobre suas nômades refeições diárias ou para reportar suas observações antropológicas referentes às experimentações culinárias mundo afora. Independente da loquacidade das anotações, o que mais impressiona é a constância: raríssimos são os textos de La Beauvoir em que não se encontra alguma referência à comida, seja a recém deglutida, seja a recém constituída em objeto de desejo.
A acreditar em testemunhos de terceiros, Simone parecia também não ter escrúpulos em indicar por sinais corporais - discretos, porém francos o suficiente para serem interpretados, às vezes, como signos de antipatia - o seu grau de assentimento ou repulsa às iguarias que calhavam de desafiar-lhe o apetite.
Um desses testemunhos foi dado por um de seus anfitriões no Brasil, o ex-presidente FHC que relata, nesta entrevista, que Simone "titubeou diante da sopa de mandioquinha que Ruth preparou" . Mas não impunemente, pois -complementa FHC: "na hora da sobremesa nos vingamos. Servimos goiabada com queijo, combinação que desagradou ainda mais a Simone. Ela torceu o nariz e acabou engolindo o doce por mera educação".
Pusilânime diante de uma inofensiva sopa de mandioquinha, a "doce Castor"era capaz, no entanto, de mostrar impressionante audácia, despojamento e liberalidade em situações peri-gastronômicas que seriam capazes de traumatizar de modo indelével o apetite da maioria dos mortais, obrigando a nós, seus leitores, a relevar suas pequenas rabugices.
Sim: que rabugice não se tornaria imediatamente insignificante diante de demonstrações hiperbólicas de heterodoxia e até, porque não dizer, de coragem diet-ética?
Uma dessas demonstrações encontra-se registrada no diário que Simone escreveu durante sua estadia nos EUA, no final dos anos 40. Depois de já ter relatado sua simpatia pelos hamburguers, costeletas de porco com fritas, chili com carne e outras fast-foods facilmente degustáveis em qualquer lanchonete, uma experiência mais radical lhe é proporcionada durante sua passagem por Chicago: a visita a um dos maiores matadouros do país.
Observe-se que, embora o cenário por ela descrito sugira forte impacto, este não foi suficiente para arrefecer seu ânimo orexígeno. Nem a agudeza de suas reflexões sobre a luta de classes, nem a sutileza de suas digressões metafísicas, nem qualquer proselitismo carnofóbico-vegetariano, nem o apelo da argumentação eco-politicamente correta foram capazes de abalar a firmeza da sua decisão de "comer sem reservas um pedaço desse toucinho...."
Também não sairei de Chicago sem ver os matadouros. Sabe-se que é a grande central em que de todos os cantos da América afluem os animais vivos que são depois reexpedidos através de todo o país sob a forma de carne frigorificada e de caixas de conserva.
(...) O guia abre a porta; dir-se-ia que vamos visitar um museu. Simplesmente, ao fim de uma longa galeria de madeira, cujo pavimento sobe e desce em rampas, um cartaz previne-nos: "as pessoas sensíveis não devem entrar". Toda a gente entra.
Os matadouros são empresas particulares; há-os grandes e modestos: parece-me que este é um dos mais importantes. Construíram-se plataformas de propósito para os turistas, à roda de vastas salas, entre o solo e o teto; desta posição sobranceira podemos observar, com olhar ao mesmo tempo preciso e distante, a agonia dos animais e o trabalho dos homens; grandes cartazes numerados explicam-nos as diferentes fases das operações (...).
Essas grandes oficinas de matança já foram descritas vezes bastantes para eu precisar de o repetir; os porcos grunhem, o sangue esguicha, e já, ao quinto cartaz, os animais estão abertos, decapitados, escaldados, tranformados numa matéria dócil, como a madeira em tábuas aparelhadas. Antes de serem distribuídos, os animais passam vinte e quatro horas pendurados nos ganchos, nas vastas salas de refrigeração; menos que uma operação de fins utilitários, é isto, parece-me, um rito sagrado; é a velada de armas, a iniciação que transfigura um ser carnal, radicado na Natureza e penetrado de eflúvios turvos, numa conquista humana, que tem o seu lugar e o seu papel na sociedade; o animal que há pouco expelia sangue e gritos torna-se em alimento, de que um indivíduo civilizado se pode alimentar com toda a segurança de espírito; assim também o matrimônio transforma em casta esposa a mulher de peçonhento sexo.
Nos grandes armazéns que se abrem ao lado dos frigoríficos, os presuntos enrolados em celofane têm a cor do trigo maduro do pão cozido; o ouro tostado das chamas, e os sortilégios do sangue e da carne foram esconjurados. Comerei sem reservas um pedaço desse toucinho.
Embora a morte dos bois seja menos horrivelmente espetacular que a dos porcos, que são degolados, visto os bois estarem escondidos por trás de uma paliçada de madeira quando o malho das execuções se lhes abate na cabeça, é este enorme palácio da matança que me causa a impressão mais violenta. No meio do cheiro quente do sangue, à surda luz da sala em que reluz o aço das facas, dois dramas se sobrepõem: o do homem contra os bichos e o dos homens entre si. Não é por acaso que os braços sangrentos que desmancham os cadáveres são quase todos, sob as suas luvas vermelhas, braços negros. O trabalho dos matadouros é dos mais duros que há , e a história dos matadouros um dos capítulos mais sombrios da história do trabalho na América: uma história de greve e lutas raciais (...).
Olho os bois, que, por um alçapão bruscamente aberto aberto rolam, demolidos, ainda palpitantes, no chão lajeado; um gancho apanha-os, iça-os, e um braço armado de uma faca corta-lhes uma artéria e a vida.
Decapitam-nos, deitam-se-lhes sobre as patas um largo panobranco, levam-se em carros enormes montes de vísceras e baldes cheios de sangue espumoso; vazam-se no lajedo vasos de água, cujo brilho metálico se enche contra o solo de reflexos assassinos. Esta colossal matança é a tragédia visível ; não é mais do que o símbolo de outra tragédia mais cruel, mais oculta. Para viver, o homem absorve vidas estranhas: mas é também de seus semelhantes que se nutre. Afigura-se-me de súbito que o gume das lâminas nas carnes cortadas, todo este grande cenário de sangue e de aço se destina apenas a tornar manifesto o temeroso sentido dessa lei natural a que estamos habituados desde que nascemos: o homem é um animal que come." (A América dia a dia. Lísboa, Arcádia, s/d. Pgs 379 a 381).


Um comentário:
Brilhante Filósofa!
"Parecia-me que a Terra não seria habitável se não houvesse alguém que eu pudesse admirar."Simone de Beauvoir
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