domingo, 23 de novembro de 2008

CLS faz 100 anos

Claude Lévi Strauss em retrato feito por seu pai (pintor e retratista), Raymond. Abaixo, uma foto de 2005.


Dia 28 de novembro Claude Lévi-Strauss faz cem anos.
A imprensa já está de olho na efeméride há tempo....
Em maio deste ano Le Magazine Littéraire publicou um dossier Lévi-Strauss (no próximo post será acrescentado um link para a edição on line) e hoje a Folha dedicou a ele boa parte do Caderno "Mais".
Além disso, temos aquela entrevista da "Veja" de 2003 e o Suplemento Literário do Times (veja o próximo post).
O Museu Quai Branly já iniciou as homenagens disponibilizando para um tour on line uma grande exposição, na qual se pode ver, entre outras coisas, a coleção de objetos e as fotos tiradas por Lévi-Strauss em suas expedições brasileiras. Além das diversas visitas temáticas promovidas pelo Museu, haverá projeções de documentários, leituras e mesas-redondas das quais participarão, entre outros: Dan Sperber, Julia Kristeva, Erik Orsenna, Alexandre Adler, Philippe Descola, Hélène Cixous, Bernard-Henri Lévy, Daniele Sallenave, Alain-Gérard Slama…

Duas das matérias publicadas no "Mais" você lê abaixo. Para ler todas as matérias na íntegra, clique.

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Caderno Mais Folha de São Paulo
23 de novembro de 2008


RETRATO DE UM HOMEM INVISÍVEL

"Sem forças" e encerrado em seu apartamento em um bairro nobre de Paris, Lévi-Strauss não deverá participar das comemorações de seu centenário; amigos falam sobre a convivência com o antropólogo
GABRIELA LONGMAN
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PARIS


Mais importante intelectual vivo, Lévi-Strauss completa cem anos, no próximo dia 28, recolhido.
Tido como o pai do estruturalismo e grande responsável pela afirmação da antropologia no campo das ciências humanas, ele assistiu -ou participou- às infinitas transformações políticas, sociais e comportamentais do século 20.
Depois de atravessar duas guerras mundiais, um Maio de 68 e todos os rebuliços que se seguiram, a Paris atual tem muito pouco em comum com aquela em que ele passou a infância e a juventude.
Grande área residencial da burguesia parisiense -comparável, talvez, ao bairro de Higienópolis, em São Paulo-, o 16º arrondissement foi desde sempre a casa de Lévi-Strauss.É ali que mora, há mais de 50 anos, num quinto andar do número 2 da rua dos Marroniers. A poucas quadras, fica a rua Passy, endereço onde viveu por mais de 20 anos com os pais, num apartamento de onde se avistava ainda o campo e suas fazendas.
Hoje, os prédios de La Défense -principal centro financeiro da França, localizado no extremo oeste- transformaram a paisagem. A arquitetura de arranha-céu que Lévi-Strauss vira em São Paulo nos anos 1930 e em Nova York nos anos 1940 ganharia um canto específico para se desenvolver, para que o restante de Paris mantivesse preservada a unidade estética dos prédios baixos, telhados com chaminés, terraços de ferro e os bulevares haussmanianos que deixam transparecer os séculos 18 e 19.
Se a arquitetura se manteve em certa medida uniforme, para a alegria dos turistas, a população mudou. Milhões de chineses, marroquinos, brasileiros, senegaleses, malianos são agora tão parisienses quanto aquele professor de etnologia que trabalhava como subdiretor do Museu do Homem e visitava os mercados de pulgas em busca de peças exóticas para sua coleção.O kebab é tão popular quanto o crepe. O pluriculturalismo -termo em grande medida lévi-straussiano- é a marca principal desta nova cidade e de seus subúrbios, com todos os problemas de imigração e discriminação que gravitam em torno desse novo quadro. A Paris de Godard e Truffaut é substituída pela de Laurent Cantet, com "Entre Paredes".

"Sem forças"

Mas esta cidade, mais lévi-straussiana do que nunca, tornou-se distante para Lévi-Strauss, que praticamente não sai mais de casa.
No dia 25, não irá ao colóquio que o Collège de France organiza com a presença de alguns de seus principais seguidores. E, no 28, não estará presente à grande jornada de homenagens que o Museu do Quai Branly prepara para o centenário, com leituras de suas obras, projeção de documentários e fotos das expedições.
"É preciso dizer que ele está absolutamente sem forças", adverte à Folha, por telefone, a secretária que gerencia sua correspondência. As visitas de seus ex-alunos se tornam cada vez mais raras, assim como rareou-se seu hábito de escutar música clássica ao longo da tarde.
Mas são fatos recentes. Até o ano passado, Lévi-Strauss recebia amigos para jantar, lia publicações de sua área. Com freqüência, atravessava ainda o rio rumo ao Quartier Latin, onde fazia visitas ao Laboratório de Antropologia Social (LAS), que ele fundou em 1960 após sua nomeação para a recém-criada cadeira de antropologia social do Collège de France, grande consagração de seu nome e seu trabalho.
Visitar hoje o laboratório no nº 52 da rua Cardinale Lemoine é mergulhar na atmosfera parisiense dos anos 1970, com o carpete vermelho manchado, um cheiro agridoce e o design editorial antiquado dos periódicos, expostos lado a lado numa pequena vitrina de vidro.Com a Sorbonne, a Escola Normal Superior e o Collège de France ali próximos, o 5º arrondissement continua sendo por excelência o bairro dos estudantes -embora as jovens pró-Sarkozy não lembrem em muito as radicais feministas que passeavam pelas ruas no tumulto daquela época.
Dirigido atualmente por Pierre Descola, o centro de pesquisa tem cerca de 50 membros e uma das mais importantes bibliotecas da área de etnologia e etnografia.

Escaninho vazio

Entre os avisos no mural da entrada, uma folha sulfite anuncia um colóquio em homenagem a Lévi-Strauss na Rússia e escaninhos de madeira guardam a correspondência destinada a cada um dos membros. O de Lévi-Strauss está lá, sim, embora vazio.
A vice-diretora Brigitte Derlon lembra-se bem de vê-lo chegar até bem pouco tempo, caminhando com certa dificuldade, mas bem-disposto.
Quando criou o laboratório, o etnólogo francês contava com a companhia de um pesquisador romeno, Isac Chiva, a quem nomeou subdiretor.
Fugindo do stalinismo, o jovem judeu chegou a Paris, onde foi aluno de Lévi-Strauss na Escola Prática de Altos Estudos antes de tornar-se seu parceiro.
Hoje, também recolhido em seu apartamento, tem dificuldade para rememorar antigos nomes, datas, histórias."Lévi-Strauss está bem, afinal tem cem anos. O problema sou eu, que tenho 82 e estou assim. É muito difícil lembrar. Não deveria ter aceitado te receber para esta entrevista, pois não tenho mais memória", diz. Cada frase é interrompida e seguida por longos silêncios e as perguntas ficam quase todas sem resposta.
Mas, ao ouvir falar em Lévi-Strauss, o colega caminha da sala até sua biblioteca e começa a mostrar as primeiras edições de "Antropologia Estrutural", "As Estruturas Elementares do Parentesco" e "Tristes Trópicos" autografadas."
Para Isac Chiva, pesquisador sutil e tenaz, em testemunho de minha estima e amizade", diz uma das dedicatórias. Esses amigos de tanta convivência jantavam juntos há um ano, mas hoje muito raramente trocam um telefonema.

Resposta doce

De uma geração bem mais jovem de pesquisadores, Emmanuel Devaux foi procurá-lo em 1978. "Eu era um jovem tímido. Queria saber se era pertinente partir para um trabalho de campo na América do Norte, e não na Amazônia, como faziam todos os meus colegas do departamento", contou à Folha.
Lévi-Strauss recebeu-o, muito cortês. "Vá sim, mas saiba que será deprimente", foi a resposta. Em 2007, Devaux enviou-lhe um livro, em que questionava os conceitos estruturalistas. "Recebi uma resposta muito doce que dizia: "Leio seu livro ainda, embora muito lentamente. O que me deixa mais tempo para meditar sobre nossas concordâncias e discordâncias".
"As atuais concordâncias e discordâncias de Lévi-Strauss em torno da imigração na França, da eleição de Obama, da crise financeira e de outras ordens do dia são um mistério. Faz alguns anos que parou por completo de dar entrevistas por "já não se considerar um homem deste tempo".
E de que tempo ele é, então?
Talvez daquele tempo mítico que ele próprio descreve em "A Via das Máscaras".Tempo em que a coleção de arte primitiva morava no Museu do Homem, e não no enorme Museu do Quai Branly, criado por Jean Nouvel.Tempos de Barthes, Bachelard, Braudel.
Hoje, todos eles viraram nomes de ruas parisienses, escritos em letras brancas sobre placas azuis.
Saussure é uma avenida movimentada perto da Porte de Clichy, bem ao norte. Foucault é uma alameda que termina no rio, colada ao Trocadero.
Hoje, solto num tempo em que seus amigos, inimigos e seguidores diretos já desapareceram, Lévi-Strauss persiste como homem e como mito -ele que tanto analisou a interação simbólica entre vivos e mortos na sociedade dos bororos.
Disputando com Sartre o título de intelectual mais influente do século 20, ele é ainda um senhor de cem anos, recolhido no silêncio. Absolutamente vivo.

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O SUPLÍCIO DE PAPAI NOEL


Inédito em livro no Brasil e previsto para ser lançado na 2ª semana de dezembro pela Cosac Naify, ensaio de 1952 discute a criação do mito moderno do Natal

CLAUDE LÉVI-STRAUSS

Há cerca de três anos, ou seja, desde que a atividade econômica voltou quase ao normal, a comemoração do Natal assumiu na França uma dimensão desconhecida antes da [Segunda] Guerra.
Esse desenvolvimento, tanto por sua importância material quanto pelas formas em que se apresenta, certamente é resultado direto da influência e do prestígio dos Estados Unidos.
Assim, vimos surgir os grandes pinheiros, montados nos cruzamentos ou nas avenidas principais, iluminados à noite; os papéis decorativos para embrulhar os presentes de Natal; os cartões de boas-festas e o costume de expô-los em cima da lareira dos destinatários na semana fatídica; as campanhas do Exército da Salvação erguendo nas ruas e nas praças seus caldeirões como se fossem potinhos de pedintes; por fim, as pessoas vestidas de Papai Noel para receber os pedidos das crianças nas grandes lojas de departamentos.
Todos esses costumes que, poucos anos atrás, pareciam pueris e barrocos aos franceses que visitassem os EUA, como um dos sinais mais evidentes da profunda incompatibilidade entre as duas mentalidades, agora se implantaram e se aclimataram na França com uma facilidade e uma amplitude que se tornam assunto a ser estudado pelo historiador das civilizações.
Nesse campo, como em outros, estamos assistindo a uma vasta experiência de difusão, não muito diferente daqueles fenômenos arcaicos que estávamos acostumados a estudar nos exemplos distantes do "briquet à piston" ou da "pirogue à balancier".
Mas é mais fácil e ao mesmo tempo mais difícil estudar fatos que se desenrolam sob nossos olhos, tendo como palco nossa própria sociedade.

Empréstimo

Mais fácil, porque a continuidade da experiência está salvaguardada, com todos os seus momentos e cada uma de suas nuanças; e também mais difícil, porque são nessas raríssimas ocasiões que percebemos a extrema complexidade das transformações sociais, mesmo as mais tênues; e porque as razões aparentes que atribuímos aos acontecimentos nos quais somos atores são muito diferentes das causas reais que neles nos determinam algum papel.
Assim, seria simplista demais explicar o desenvolvimento da comemoração do Natal na França apenas pela influência dos EUA.
O empréstimo é inegável, mas não traz consigo razões suficientes para explicar o fenômeno. Enumeremos brevemente as mais evidentes: há muitos americanos na França, os quais comemoram o Natal à sua maneira; o cinema, os "digests", os romances e também algumas reportagens da grande imprensa tornaram conhecidos os costumes americanos, e estes gozam do prestígio atribuído à potência militar e econômica dos EUA.Tampouco se exclui a conjectura de que o Plano Marshall tenha favorecido, direta ou indiretamente, a importação de algumas mercadorias ligadas ao rito natalino.
Mas tudo isso não basta para explicar o fenômeno.
Costumes importados dos EUA impõem-se a camadas da população que lhes desconhecem a origem; os meios operários, onde a influência comunista poderia desacreditar tudo o que traz a marca "made in USA", os adotam com a mesma disposição dos demais.
Assim, em vez de uma difusão simples, cabe invocar aquele processo tão importante que Kroeber, o primeiro a identificá-lo, chamou de "difusão por estímulo" ("stimulus diffusion"): o costume importado não é assimilado, mas funciona como catalisador, ou seja, provoca com sua presença o surgimento de um uso semelhante que já estava potencialmente presente no meio secundário.
Ilustremos esse ponto com um exemplo diretamente relacionado ao nosso tema.
O industrial fabricante de papel que vai aos EUA, a convite dos colegas americanos ou como membro de uma missão econômica, constata que lá fabricam papéis especiais para os pacotes de Natal; ele adota a idéia, e temos aí um fenômeno de difusão.

Exigência estética

A dona-de-casa parisiense que vai à papelaria do bairro comprar o papel necessário para embrulhar seus presentes vê na vitrine papéis mais bonitos e de melhor acabamento do que aqueles que costumava usar; ela ignora totalmente os costumes americanos, mas esse papel satisfaz uma exigência estética e exprime uma disposição afetiva que já existia, só não dispunha de meios de expressão. Ao escolhê-lo, a dona-de-casa não adota diretamente (como o fabricante) um costume estrangeiro, mas esse costume, tão logo é reconhecido, estimula nela o nascimento de um costume igual.
Em segundo lugar, não se pode esquecer que a comemoração natalina, já antes da guerra, estava em processo ascendente na França e em toda a Europa. Isso estava relacionado, inicialmente, à melhoria progressiva do nível de vida, mas também a motivos mais sutis.
Com as características que conhecemos, o Natal é uma festa essencialmente moderna, apesar dos múltiplos traços arcaizantes. O uso do visco não é, pelo menos em primeira instância, uma herança druídica, pois parece ter voltado à moda na Idade Média.

Árvore de Natal

O pinheiro de Natal não é mencionado em parte nenhuma antes de certos textos alemães do século 17; ele segue para a Inglaterra no século 18 e chega à França apenas no século 19. O dicionário "Littré" parece conhecê-lo pouco ou sob forma muito diferente da nossa, pois o define (no verbete "Natal") com a designação: "Em alguns países, de um ramo de pinheiro ou de azevinho com diferentes enfeites, guarnecido principalmente de balas e brinquedos para serem dados às crianças, que fazem uma tremenda festa".
A variedade de nomes dados ao personagem incumbido de distribuir os brinquedos às crianças -Papai Noel, São Nicolau, Santa Claus- também mostra que ele é resultado de um fenômeno de convergência, e não um protótipo antigo conservado por toda parte.
O desenvolvimento moderno, porém, não é uma invenção: ele se limita a recompor peças e fragmentos de uma antiga comemoração, cuja importância nunca foi totalmente esquecida.
Se a árvore de Natal, para o "Littré", é quase uma instituição exótica, Cheruel nota de maneira significativa, em seu "Dicionário Histórico das Instituições": "O Natal [...] foi, durante vários séculos e até uma época recente, a ocasião de festas em família".
Assim, estamos diante de um ritual cuja importância flutuou bastante ao longo da história; teve apogeus e declínios. A forma americana é apenas sua encarnação mais moderna.
Aliás, essas rápidas indicações bastam para mostrar que, diante desse tipo de problema, é preciso desconfiar das explicações demasiado fáceis que apelam automaticamente aos "vestígios" e às "sobrevivências".
Se nunca tivesse existido um culto às árvores nos tempos pré-históricos, que se prolongou em várias tradições folclóricas, a Europa moderna certamente não teria "inventado" a árvore de Natal.No entanto -como mostramos mais acima-, ela é uma invenção recente.
Essa invenção, porém, não nasceu do nada. Pois outros costumes medievais são plenamente comprovados: a chamada lenha de Natal (que inspirou um bolo natalino em Paris), um tronco espesso para arder a noite toda; os círios de Natal, com uma dimensão própria para a mesma finalidade; a decoração das casas (desde as Saturnais romanas, sobre as quais voltaremos a falar) com ramos verdes: hera, azevinho, pinheiro; por fim, e sem nenhuma relação com o Natal, os romances da Távola Redonda mencionam uma árvore sobrenatural recoberta de luzes.

Solução sincrética

Em tal contexto, a árvore de Natal surge como uma solução sincrética, isto é, concentra num só objeto exigências até então dispersas: árvore mágica, fogo, luz duradoura, verde persistente. Inversamente, Papai Noel, em sua forma atual, é uma criação moderna, e ainda mais recente é a crença que situa sua morada na Groenlândia, possessão dinamarquesa (o que obriga o país a manter uma agência de correio especial para responder às cartas de crianças do mundo inteiro), e o mostra viajando em um trenó puxado por renas.
Consta que esse aspecto da lenda se desenvolveu principalmente na última guerra, devido à presença de tropas americanas na Islândia e na Groenlândia.
E, no entanto, as renas não estão ali por acaso, visto que existem documentos renascentistas ingleses mencionando troféus de renas durante as danças de Natal, antes de qualquer crença em Papai Noel, e quem dirá da formação de sua lenda.
Assim, fundem-se e refundem-se elementos muito antigos, introduzem-se novos, encontram-se fórmulas inéditas para perpetuar, transformar ou reviver usos de velha data.
Não há nada de especificamente novo -sem jogo de palavras- no renascimento do Natal.
Por que, então, ele desperta tanta emoção e por que é em torno da figura de Papai Noel que se concentra a animosidade de algumas pessoas?

Trecho de "O Suplício de Papai Noel" (ed. Cosac Naify, 56 págs., R$ 25). Tradução de DENISE BOTTMANN .

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