
Entre uma e outra preleção sobre o "petit livre rouge" de Mao ou sobre as "atuais tendências da luta de classes", os personagens de A chinesa (filme de Godard de 1967 e do qual exaustivamente se disse ser uma narrativa premonitória dos eventos de maio de 68) ainda arrumam tempo para destilar sua desilusão com os descaminhos da intelectualidade francesa da época.
No segmento em que Godard "entrevista" a personagem Veronique (estudante de filosofia em Nanterre), ela diz, do alto dos seus 19 anos e com aquele ar blasé quase tão indestrutível quanto
a compulsão que a leva a acender um cigarro no outro durante o filme todo:
"Merleau morreu. Nizan morreu. Sartre se refugia em Flaubert e Aragon na matemática."
Ao que Godard acrescenta sucinto:
"Isso é comovente".
E ela: "Sim, concordo: é comovente. Mas é trágico também."
Sartre, Foucault, Paul Nizan, Lévi-Strauss: por meio da voz, imagem, ou texto, é feita a cada um deles a referência (e se for o caso, também a reverência) que lhe cabe conforme as idiossincrasias desse pequeno e doméstico tribunal revolucionário da célula maoísta "Aden Arabie".
Designados por votação pelos 5 camaradas revolucionários, uma penca de escritores, políticos, filósofos e poetas de épocas e nacionalidades diversas figuram em uma espécie de painel-alvo que adorna a parede de um dos cômodos da casa: são os "inimigos públicos".
O "eleito" que ocupa a posição número 122 (repare a foto acima, no canto es
querdo inferior) é a capa de As palavras e as coisas, livro de Foucault lançado no ano anterior e sobre o qual Sartre disse ser "a última barreira erguida pela burguesia contra o marxismo-leninismo".Na cena em que o tal painel aparece, Guilhaume, o ator do grupo, dispara seu arco e flecha enquanto elocubra:
"Como unir a teoria marxista-leninista com a prática revolucionária? Há um dizer conhecido... É como atirar num alvo... Assim com se mira num alvo, o marxismo-leninismo deve mirar na revolução....."
Veja a cena aqui.
Na foto à direita, Sartre e Godard em 1968.

2 comentários:
Andréa,
desculpe a minha ignorância, mas quem é Aragon e porque "na matemática"?
Tentei descobrir esta questão sozinho, mas não consegui.
Beijos
Marcelo Norberto
Oi Marcelo!
Trata-se de Louis Aragon, escritor francês ligado ao surrealismo e fortemente ligado ao partido comunista francês (na wikipédia em francês vc consegue mais informações, em português está muito fraco).
Quanto à esta relação com a matemática que Godard cita aí, nada sei! Também pesquisei e não encontrei menção a respeito!
Um abraço,
Andréa.
Postar um comentário