Atendendo a pedidos, segue a Introdução (apressadamente) traduzida.

"Não, Foucault não foi um pensador estruturalista, não, ele não pertence a um certo “Pensamento 68”, e muito menos era relativista, historicista. Ele não farejava ideologia em tudo. Coisa rara nesse século, Foucault foi, conforme ele mesmo declarou, um pensador cético*, que acreditava apenas na verdade dos fatos, dos inumeráveis fatos históricos que preenchem todas as páginas de seus livros, e nunca na verdade das idéias gerais. Pois ele não admitia nenhuma transcendência fundadora. Apesar disso, não era um niilista: constatava a existência da liberdade humana (lê-se a expressão em seus textos) e não pensava que, mesmo erigida em doutrina 'desencantada', a perda de todo fundamento metafísico ou religioso alguma vez tenha desencorajado essa liberdade de ter convicções, esperanças, indignações, revoltas (ele mesmo foi um exemplo disso. Militava à sua maneira, que era a de um intelectual de um novo tipo; em política, foi um reformador); porém achava falso e inútil refletir sobre seus combates, dissertar sobre suas indignações, generalizar. 'Não utilize o pensamento para conferir um valor de verdade a uma prática política', escreveu ele**.
Ele não foi o inimigo do homem e do sujeito humano, como se acreditou; simplesmente achava que esse sujeito não poderia fazer descer do céu uma verdade absoluta, nem agir soberanamente no céu das verdades; que não se podia senão reagir contra as verdades e as realidades de sua época ou inová-las. Como Montaigne e nas antípodas de Heidegger***, Foucault achava que 'nós não temos nenhuma comunicação com o Ser'****. Contudo, seu ceticismo não o fazia exclamar: 'Ah! Tudo é duvidável' Se se preferir, este suposto 'sessenta e oitista' foi um empirista e um filósofo do entendimento, por oposição a uma ambiciosa Razão. Ele chegou, sem muito o exprimir, a uma concepção geral da condição humana, de sua liberdade que reage e de sua finitude; o foucauldismo é, verdadeiramente, uma antropologia empírica que tem sua coerência e cuja originalidade é a de ser fundada sobre a crítica histórica.
Agora, passemos aos detalhes, mas não sem primeiro ter enunciado, a fim de esclarecer, quais serão nossos dois princípios. Primo, a aposta última da história humana, para além até do poder, da economia, etc., é a verdade: qual regime econômico cogitaria declarar-se falso? Esse problema da verdade na história não tem nada, mas absolutamente nada a ver com duvidar da inocência de Dreyfus ou da realidade das câmaras de gás. Secundo, o conhecimento histórico, por sua vez, se quer levar a termo suas análises de uma determinada época, deve alcançar, para além da sociedade ou da mentalidade, as verdades gerais nas quais os espíritos daquela época inconscientemente estavam encerrados, como peixes em um aquário.
Quanto ao cético, é um ser duplo. Quanto mais ele pensa, mas se mantém fora do aquário e observa os peixes que giram à sua volta. Mas como é preciso viver bem, ele se encontra no aquário, sendo ele mesmo um peixe, para decidir qual candidato terá o seu voto nas próximas eleições (sem dar, no entanto, valor de verdade à sua decisão). O cético é, ao mesmo tempo, um observador, fora do aquário que ele põe em dúvida, e um dos peixes vermelhos. Desdobramento que nada tem de trágico.
No presente caso, o observador que é o herói desse pequeno livro chama-se Michel Foucault, esse magro, elegante e incisivo personagem que nada nem ninguém fazia recuar e cuja esgrima intelectual manejava a pluma com se fosse um sabre. É por isso que eu poderia ter intitulado o livro que vai se ler de O samurai e o peixe vermelho."
* John RAJCHMAN, Michel Foucault: la liberté de savoir, trad. Durastanti, PUF, 1987, p. 8 : « Foucault é o grande cético de nossa época. Ele duvida de nossos dogmatismos e de nossas antropologias filosóficas, ele é o pensador da dispersão e da singularidade.”
** Dits et Écrits, éd. Defert et Edwald, Gallimard, 1994, 4 vol., III, p.135.
*** Foucault disse o quanto Heidegger foi importante para ele e evocou suas leituras de Heidegger em Dits et Écrits, IV, p. 703; mas, em minha humilde opinião, de Heidegger ele leu pouco mais que Vom Wesen der Wahrheit e o grande livro sobre Nietzsche, que foi importante para ele porque teve, como efeito paradoxal, torná-lo nietzscheano e não heideggeriano.
**** Montaigne, II, 12, Apologie de Raymond Sebond.

2 comentários:
Embora não seja adepto de uma postura cética na História, interessou-me, após a leitura desta introdução, alguns pontos chamaram-me a atenção, como as discussões sobre Heidegger, e suas considerações sobre a verdade na ciência histórica.
Excelente texto de Veyne! Transmissor de Foucault para os historiadores!
Oi Jeferson!
Confesso que acho o argumento do Veyne um pouco estranho: como é possível que alguém, sendo cético, ao mesmo tempo acredite na "verdade do fato histórico"?
E pra ser bem sincera: achei esse negócio de aquário, peixinhos vermelhos e samurai um tanto o quanto kitsch. Não imagino o Foucault muito desse jeito não.
Mas torço para que o resto do livro seja bom (ainda não tive tempo de passar da introdução).
Um abração,
Andréa.
Postar um comentário