EM BUSCA DO HOMEM TOTAL (Caderno Mais da Folha de São Paulo, 12/06/2005)
Encontro do filósofo com Fidel Castro e Che Guevara, em Cuba, em 1960
Figura e atuação do filósofo francês concentra as hesitações, desequilíbrios e decisões da filosofia e da história ao longo do século 20
JEAN-LUC NANCY
A figura de Sartre concentra de maneira marcante os aspectos essenciais de um tempo de oscilação, hesitação e decisão, todas juntas, durante o qual girou o curso da práxis filosófica em meados do século 20 - e com ele a relação desse século com sua própria história, com sua própria disposição consigo mesmo ou com o mundo, seus possíveis e suas exigências.
Sartre e a relação com Sartre terão caracterizado o que podemos considerar o desequilíbrio do século 20 -"finalmente em si mesmo"- e a abertura nele de uma situação nova.
Essa configuração exemplar pode ser esboçada -sem ambição de análise- a partir de algumas características.
A primeira seria a da leitura de Husserl e de Heidegger. Para Sartre, o que ficara relativamente acantonado na Alemanha (e depois foi expulso por ela) e também relativamente limitado à universidade acedia a um novo estatuto: aquele em que a filosofia traz visivelmente sua influência ao meio do real da história, do ethos e do agir.
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Lendo Heidegger a seu modo,
Sartre defendeu a negação de
toda essência e a recusa do "ser"
substancial
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Sem dúvida, fez de Heidegger uma leitura tributária de postulados afastados inicialmente por este último e, resumindo, substituiu uma simples antecedência da existência sobre a essência pela franca negação de toda essência e pela recusa do "ser" substancial. Bataille, Beaufret, Granel e Derrida tiveram de reconquistar essa recusa e a "desconstrução" da ontologia. Mas eles o conseguiram, pelo menos em parte, porque Sartre já havia preparado o caminho.
Na leitura de Heidegger (e na de Husserl, mas aqui seria preciso trasvasar para Merleau-Ponty) não estava em jogo tanto a relação com um autor quanto, mais profundamente, com a própria concepção do pensamento e, singularmente, sua ordenação consensual em torno de um humanismo de "valores" ou da produção de um "homem total", ele mesmo um valor absoluto. Não por acaso, um texto de Derrida dedicado a Sartre se intitulou "Os Fins do Homem" (1972) e trabalhou expressamente a ambigüidade desse título colocado entre Sartre e Foucault.
Outra característica seria a da relação com a psicanálise. Enquanto se opunha a Freud, Sartre abria no meio da tradição da "consciência" a possibilidade de deslocar o "sujeito" não para uma subconsciência, mas para o tecido das relações de forças e de significado nas quais pode surgir o ponto fugaz de uma singularidade.
Aí também Bataille, Foucault, Deleuze e Derrida abordariam de maneira decidida o que Lévi-Strauss chamou em 1962, ao discutir Sartre, de o "mundo da comunicação", onde essa palavra deveria ser compreendida não como inter-subjetiva, mas como ante-subjetiva e transcendental ou estruturante.
Aí também, Sartre teria se mantido no limite, na linha divisória de águas.
A "estrutura" operava sobre um sentido não-dado, quando para ele permanecia no fundo pré-dado (como "liberdade", por exemplo).
Uma última característica estaria nessa relação com a literatura que fez de Sartre um Jano inédito. Ninguém antes dele havia sido escritor e filósofo e ninguém havia até então (desde o romantismo) filosofado sobre a literatura. Em certo sentido, essa mistura ou sobretudo esse atrito de gêneros sob uma mesma pluma nada perturbou na clara divisão dos registros teórico e ficcional.No entanto era ao mesmo tempo o modo de exposição do pensamento e a natureza do discurso do sentido ou da verdade que se encontravam surdamente colocados em jogo. Que esse discurso não possa se tornar seu próprio fundamento e que ele seja de maneira constitutiva exposto à alteridade segundo a qual, precisamente, pode haver um "sentido" não-preestabelecido (não-transcendente), isso Sartre já sabia.
Caminho da interrogação
Ele abria, sem se envolver nele, o caminho da interrogação contemporânea sobre todas as formas e sobre todos os questionamentos de uma escrita filosófica, ou seja, de um pensamento que se engaja a partir do que ele formulou assim: "Trata-se de criar o mundo que já existe. Isso significa que o mundo deve surgir para mim como originário até em seu ser de uma liberdade que é a minha liberdade. Procissão poética: o ser-em-si tem de ser liberdade magicamente transformada em alteridade" ("Cadernos para uma Moral"). Essa frase reúne grandes ambigüidades e particularmente aquela que justapõe um "surgir para mim" e um "ser" numa equivalência incerta.
Mas aqui não é lugar de análise crítica. O que se deve sublinhar é isto: com essa "procissão poética" indica-se uma superação do regime do sentido dado e recebido sem sair de si, sem questionamento absoluto de uma suposta relação com um céu ou um horizonte cheio de verdade.
No texto póstumo publicado em 1989 por Annette Elkaïm-Sartre, "Verdade e Existência", podemos ler: "Toda verdade é provida de um fora que sempre ignorarei. Assim, a atitude da generosidade é atirar a verdade aos outros para que ela se torne infinita na medida em que me escapa".
Nós somos, já nos havíamos tornado durante a vida de Sartre, seus outros e seu fora.Diríamos que a verdade absolutamente atirada à alteridade é infinita no sentido "atual", e não somente "potencial", como ele a entende. Diríamos que esse infinito inscreve o fora e a alteridade no próprio "homem".
Mas não negaremos que ainda nos chega por meio disso alguma coisa da generosidade de Sartre.
Essa generosidade - essa responsabilidade- insistia em querer mudar o mundo, como se deve para quem quer pensá-lo, mas não percebia o quanto o mundo se transformava e, com ele, o pensamento.
Jean-Luc Nancy é filósofo francês, autor de "Le Sens du Monde" (O Sentido do Mundo, Galilée).
Este texto foi publicado no "Le Monde".Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves.