quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Nos trópicos

"O antropólogo Claude Lévy-Strauss detestou a baía de Guanabara".
Quanto a Sartre e Simone , não se sabe... Enquanto perambulavam pelo Brasil no inverno de 1960 (doze mil quilômetros, ao todo) Simone encarregava-se de registrar a experiência brasileira no livro que recebeu o título de La force des choses (e que por um desses mistérios do mundo editorial se tornou, na tradução para o português, Sob o signo da história). O relato de suas primeiras impressões sobre o Rio é apenas polido e um tanto o quanto morno, deixando entrever, no máximo, uma pequena nesga de decepção à primeira vista com a orla de Copacabana: "sua beleza é tão simples que não é percebida nos cartões postais e foi-me preciso algum tempo para que me penetrasse". Contudo, somando-se as tiradas espirituosas ("Niterói parece ser, com seus duzentos mil habitantes e seus arranha-céus, uma gêmea sem sorte do Rio"), as poéticas e/ou piegas descrições das maravilhas naturais e sua esforçada tentativa de compreensão das favelas & outros "exotismos", têm-se a impressão de que no cômputo geral predominou, em sua relação com o Brasil, uma disposição afetuosa. Em sua paleta humoral - bem diferente da de Sartre - um comedido "ton sur ton": condescendente, às vezes; receptiva, interessada, paciente, quase na maior parte do tempo; aborrecida, raramente (pelo menos assim consta em seu diário). A empatia, porém, foi compreensivelmente abalada pela experiência do tifo contraído em Belém e pelo contato com a miséria nordestina ("durante dois meses amei o Brasil; amo-o, ainda, através de minhas recordações: naquele momento, porém, quase cheguei a ponto de gritar contra a seca, a fome, contra toda aquela angústia, aquela miséria".)



Ao lado: Sartre e Simone na praia de Copacabana.
(Há quem diga que a foto é uma montagem escancarada)
Abaixo: Zélia Gattai, Sartre, Simone, Jorge Amado e uma babalorixá.





As fotos da Conferência de Araraquara estão
aqui. E algumas outras boas fotos aqui.








O Estrangeiro. Em carne e osso.

Já no caso de Camus, a julgar pelo relato feito pelo próprio em Diário de Viagem, os dois meses de visita ao Brasil em 1949 foram uma espécie de workshop senior para experts em absurdo. Apesar de confessar-se seduzido por algumas exuberâncias naturais (mulheres incluídas), na maior parte do tempo o tédio e a depressão alternavam-se com o sarcasmo e a melancolia. Segundo Otto Lara Rezende, "sua viagem à América do Sul, começando pelo Brasil, aborreceu-o tanto que deu vontade de matar-se".

Alguns trechos do Diário:

"Os motoristas brasileiros ou são alegres loucos ou frios sádicos. A confusão e a anarquia deste trânsito só são compensadas por uma lei: chegar primeiro, custe o que custar."

"O contraste mais impressionante é fornecido pela ostentação de luxo dos palácios e dos prédios modernos com as favelas , às vezes a cem metros do luxo espécies de bidonvilles agarrados aos flancos dos morros, sem água nem luz, onde vive uma população miserável, negra e branca. As mulheres vão buscar água no sopé dos morros, onde fazem fila, e trazem de volta sua provisão em latas de alumínio, que carregam na cabeça como as mulheres kabyles. Enquanto esperavam, passam diante delas, numa fileira ininterrupta, os animais niquelados e silenciosos da indústria automobilística americana. Nunca o luxo e a miséria me pareceram tão insolitamente mesclados. É bem verdade que, segundo um dos meus companheiros, 'pelo menos eles se divertem muito'".

"O Brasil, com sua fina armadura moderna colada sobre esse imenso continente fervilhante de forças naturais e primitivas, me faz pensar num edifício corroído cada vez mais de baixo para cima por traças invisíveis. Um o edifício desaba, e todo um pequeno povo agitado, negro, vermelho e amarelo espalhar-se-á pela superfície do continente, mascarado e munido de lanças, para a dança da vitória."

"Despertar é difícil. Viver é fazer mal aos outros e a si próprio através dos outros. Terra cruel! Como fazer para não tocar em nada? Que exílio definitivo encontrar?"

"Perseguido, na verdade, nessa gloriosa luz do Rio, pela idéia do mal que se faz aos outros a partir do instante em que se olha para eles. Durante muito tempo fazer sofrer me foi indiferente, é preciso confessá-lo. Foi o amor que me esclareceu quanto a isto. Agora, não consigo mais suportá-lo. De certa forma, é melhor matar que fazer sofrer. O que me pareceu muito claramente, ontem, afinal, é que eu desejaria morrer."


Um vídeo sobre a experiência brasileira de Camus.

2 comentários:

Anônimo disse...

Brilhante observação de Camus, no tocante à realidade brasileira, ainda em 1949, pós-Getúlio Vargas e uma tímida democratização do país, sob a "tutela" de Dutra. Se transportássemos Camus para nosso contexto, creio que descreveria quase a mesma coisa do que encontrara. Aproveito para elogiar este vídeo anexado ao artigo. Muito emocionante, principalmente, e infelizmente, imagens de sua morte e enterro. Como o pensamento é ETERNO, Camus, ainda está presente em nossoas formações não apenas como acadêmicos, e sim humanos amando pensar...

abaetê disse...

Oi Jeferson!
Obrigada pelo comentário.
Sim,mas acho que os tom da descrição de Camus, se feita hoje, seria ainda mais cinza e horrorizante e o desejo de suicídio ainda mais presente...
Andréa.